eu tou sempre a foder, tipo no sabado, é só rir, com pausas para beber aguardente-de-sacavém, mais rir mais foder, com direito a tudo o que temos direito e o que não temos, há dias assim, foi lindo, há alturas em que uma mulher nunca fala demais; o entusiasmo e os sorrisos, quiz que lhe lambesse a cona e fez questão de a passar por água mentolada, não foi no sabado foi na terça
K Y L E R I S M
kyler kylerism filmaria kyleria kylerisse
sábado, junho 24
terça-feira, junho 13
segunda-feira, junho 12
Carta a Mário de Sá-Carneiro
"Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental - uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto - que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim. Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá; e é esta a razão íntima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueca. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga. Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a minha consciência do meu corpo, que sou a crianca triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Marco, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto. No jardim que entrevejo pelas janela caladas do meu sequestro, atiraram com todos os baloucos para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto; e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginacão, ter baloucos para esquecer a hora. Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do "Marinheiro" ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se. Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as coisas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que me sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena - chia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas. Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar. Pode ser que, se não deitar hoje esta carta no correio amanha, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no "Livro do Desassossego". Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto. As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual. Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes. De que cor será sentir? Milhares de abracos do seu, sempre muito seu, FERNANDO PESSOA
P.S. - Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanha, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histero-neurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si-próprio que dele são tao características... Você acha-me razão, não é verdade?"
Pessoa, Fernando, Livro do Desassossego por Bernardo Soares
P.S. - Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanha, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histero-neurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si-próprio que dele são tao características... Você acha-me razão, não é verdade?"
Pessoa, Fernando, Livro do Desassossego por Bernardo Soares
sábado, maio 13
domingo, abril 30



Je t'aime, Je t'aime
Oui je t'aime
Moi non plus
Oh mon amour
Comme la vague irrésolue
Je vais, je vais et je viens
Entre tes reins
Je vais, et je viens
Entre tes reins
Et je Me retiens
Je t'aime, je t'aime
Oh oui je t'aime!
Moi non plus.
Oh mon amour
Tu es la vague, moi l'île nue
Tu vas, tu vas et tu viens
Entre mes reins
Tu vas et tu viens
Entre mes reins
Et je Te rejoins
Je t'aime je t'aime
Oh oui je t'aime
- Moi non plus
Oh mon amour
Comme la vague irrésolue
Je vais, je vais et je viens
Entre tes reins
Je vais et je viens
Entre tes reins
Et je me retiens
Tu vas, tu vas et tu viens
Entre mes reins
Tu vas et tu viens
Entre mes reins
Et je Te rejoins
Je t'aime je t'aime
Oh oui je t'aime Moi non plus
Oh mon amour
L'amour physique est sans issue
Je vais je vais et je viens
Entre tes reins
Je vais et je viens
Je me retiens
Non! maintenant
Viens
sexta-feira, abril 28
Bluer than velvet was the night
Softer than satin was the light
From the stars
She wore blue velvet
Bluer than velvet were her eyes
Warmer than May her tender sighs
Love was ours
Ours a love I held tightly
Feeling the rapture grow
Like a flame burning brightly
But when she left, gone was the glow of
Blue velvet
But in my heart there'll always be
Precious and warm, a memory
Through the years
And I still can see blue velvet
Through my tears
quarta-feira, abril 26
sexta-feira, abril 21
quarta-feira, abril 19
até que a morte nos separe
perceber que ninguém morre quando duas pessoas se separam foi uma grande surpresa
terça-feira, abril 18
descobri, ontem, que tenho um "fetiche" por mulheres que não falam do tempo;
Hoje, a minha chefe chamou-me ao seu gabinete para me dar uma piçada. Falou cerca de quarenta minutos, não me lembro o que disse; só me lembro de a ver:
a colocar os óculos;
a cruzar as pernas;
a mexer no cabelo;
a descruzar as pernas;
Não há roupa que consiga esconder aquele corpo. Não consigo imaginar aqueles tornozelos sem os saltos altos. O telefone nem sequer existia até ela pegar nele.
Ao terminar deu-me uma ordem, não me lembro qual; mas gostei, fiquei a saber que gosto que ela me de ordens
domingo, abril 9
GIRL ON A MOTORCYCLE
Then I could buy something for you
Something so pretty something so blue
Then you'd be mine
A girl on a motorcycle
I don't know why I start to cry
Whenever you're near
Brings me to tears nothing to say
When you've not here you're my girl
She's my girl
A girl on a motorcycle
Things that we said today never came true
Then I could be something to you
Something so pretty something so blue
Then you'd be mine
A girl on a motorcycle
She likes to wear leather in all kinds of weather
The hotter the better
She's my girl
See her in the park as she rides round the dark
A girl on a motorcycle
She's my girl
A girl on a motorcycle
She's my girl
A girl on a motorcycle
She's my girl
A girl on a motorcycle
She's my girl
sexta-feira, abril 7
para ti, pumpkin
Erotica, romance (repeat)
My name is Dita
I'll be your mistress tonight
I'd like to put you in a trance
If I take you from behind
Push myself into your mind
When you least expect it
Will you try and reject it
If I'm in charge and I treat you like a child
Will you let yourself go wild
Let my mouth go where it wants to
Give it up, do as I say
Give it up and let me have my way
I'll give you love, I'll hit you like a truck
I'll give you love, I'll teach you how to ...
I'd like to put you in a trance, all over
Erotic, erotic, put your hands all over my body (repeat twice)
Erotic, erotic
Once you put your hand in the flame
You can never be the same
There's a certain satisfaction
In a little bit of pain
I can see you understand
I can tell that you're the same
If you're afraid, well rise above
I only hurt the ones I love
Give it up, do as I say
Give it up and let me have my way
I'll give you love, I'll hit you like a truck
I'll give you love, I'll teach you how to ...
I'd like to put you in a trance, all over
Erotic, erotic, put your hands all over my body (repeat twice)
Erotic, erotic
Erotica, romance
I'd like to put you in a trance
Erotica, romance
Put your hands all over my body
I don't think you know what pain is
I don't think you've gone that way
I could bring you so much pleasure
I'll come to you when you say
I know you want me
I'm not gonna hurt you
I'm not gonna hurt you, just close your eyes
Erotic, erotic (repeat several times)
Put your hands all over my body
All over me, all over me
Erotica, [give it up, give it up] romance
I'd like to put you in a trance
Erotica, [give it up, give it up] romance
I like to do a different kind of
Erotica, [give it up, give it up] romance
I'd like to put you in a trance
Erotica, romance
Put your hands all over my body
Only the one that hurts you can make you feel better
Only the one that inflicts pain can take it away
Eroti - ca
My name is Dita
I'll be your mistress tonight
I'd like to put you in a trance
If I take you from behind
Push myself into your mind
When you least expect it
Will you try and reject it
If I'm in charge and I treat you like a child
Will you let yourself go wild
Let my mouth go where it wants to
Give it up, do as I say
Give it up and let me have my way
I'll give you love, I'll hit you like a truck
I'll give you love, I'll teach you how to ...
I'd like to put you in a trance, all over
Erotic, erotic, put your hands all over my body (repeat twice)
Erotic, erotic
Once you put your hand in the flame
You can never be the same
There's a certain satisfaction
In a little bit of pain
I can see you understand
I can tell that you're the same
If you're afraid, well rise above
I only hurt the ones I love
Give it up, do as I say
Give it up and let me have my way
I'll give you love, I'll hit you like a truck
I'll give you love, I'll teach you how to ...
I'd like to put you in a trance, all over
Erotic, erotic, put your hands all over my body (repeat twice)
Erotic, erotic
Erotica, romance
I'd like to put you in a trance
Erotica, romance
Put your hands all over my body
I don't think you know what pain is
I don't think you've gone that way
I could bring you so much pleasure
I'll come to you when you say
I know you want me
I'm not gonna hurt you
I'm not gonna hurt you, just close your eyes
Erotic, erotic (repeat several times)
Put your hands all over my body
All over me, all over me
Erotica, [give it up, give it up] romance
I'd like to put you in a trance
Erotica, [give it up, give it up] romance
I like to do a different kind of
Erotica, [give it up, give it up] romance
I'd like to put you in a trance
Erotica, romance
Put your hands all over my body
Only the one that hurts you can make you feel better
Only the one that inflicts pain can take it away
Eroti - ca
terça-feira, abril 4
Its Not Right But Its Ok
Friday night you and your boys went out to eat
Then they hung out,but you came home around three
If six of ya'll went out then four of you were really cheap
'Cause only two of you had dinner
I found your credit card receipt
It's not right but it's okay
I'm gonna make it anyway
Pack your bags up and leave
Don't you dare come running back to me
It's not right but it's okay
I'm gonna make it anyway
Close the door behind you
Leave your key
I'd rather be alone than unhappy
I'm packing bags so you can leave town for a week
The phone rings then you look at me (why'd you turn and look at me)
Said it was one of your friends
Down on 54th street boy So why did 213 show up on your caller ID
I've been through all this before
So how could you think
That I would stand around and take some more
Things are gonna change
Cause I won't be a fool anymore
That's why you have to leave
So don't turn around to see my face
There's no more tears left here for you to see
Was it really worth you going out like that - tell me
See I'm moving on and I refuse to turn back
See all of this time I thought I had somebody down for Whitney
It turns out you were making a fool of me
It's not right but it's okay
I'm gonna make it anyway
Pack your bags up and leave
Don't you dare come running back to me
It's not right but it's okay
I'm gonna make it anyway
Close the door behind you
Leave your key
I'd rather be alone than unhappy
It's not right but it's okay - [It's not right - so okay baby]
I'm gonna make it anyway [I can pay my own rent]
Pack your bags up and leave [pay my liability - take care of my babies]
Don't you dare come running back to me
It's not right but it's okay
I'm gonna make it anyway [get up and leave]
Close the door behind you
Leave your key
I'd rather be alone than unhappy
It's not right but it's okay [I'm gonna be okay, I'm gonna be alright]
I'm gonna make it anyway [I'm gonna be okay, I'm gonna be alright]
Pack your bags up and leave [I'm gonna be okay, I'm gonna be alright]
Don't you dare come running back to me
It's not right but it's okay [I'm gonna be okay, I'm gonna be alright]
I'm gonna make it anyway [I'm gonna be okay, I'm gonna be alright]
Close the door behind you [I'm gonna be okay, I'm gonna be alright]
Leave your key
I'd rather be alone than unhappy [there's no more tears left here for you to see]
It's not right but it's okay
I'm gonna make it anyway
Pack your bags up and leave
Don't you dare come running back to me
It's not right but it's okay
I'm gonna make it anyway
Close the door behind you
Leave your key
I'd rather be alone than unhappy
It's not right but it's okay
I'm gonna make it anyway
Pack your bags up and leave
Don't you dare come running back to me
It's not right but it's okay
I'm gonna make it anyway
Close the door behind you
Leave your key
I'd rather be alone than unhappy
W. Houston
Then they hung out,but you came home around three
If six of ya'll went out then four of you were really cheap
'Cause only two of you had dinner
I found your credit card receipt
It's not right but it's okay
I'm gonna make it anyway
Pack your bags up and leave
Don't you dare come running back to me
It's not right but it's okay
I'm gonna make it anyway
Close the door behind you
Leave your key
I'd rather be alone than unhappy
I'm packing bags so you can leave town for a week
The phone rings then you look at me (why'd you turn and look at me)
Said it was one of your friends
Down on 54th street boy So why did 213 show up on your caller ID
I've been through all this before
So how could you think
That I would stand around and take some more
Things are gonna change
Cause I won't be a fool anymore
That's why you have to leave
So don't turn around to see my face
There's no more tears left here for you to see
Was it really worth you going out like that - tell me
See I'm moving on and I refuse to turn back
See all of this time I thought I had somebody down for Whitney
It turns out you were making a fool of me
It's not right but it's okay
I'm gonna make it anyway
Pack your bags up and leave
Don't you dare come running back to me
It's not right but it's okay
I'm gonna make it anyway
Close the door behind you
Leave your key
I'd rather be alone than unhappy
It's not right but it's okay - [It's not right - so okay baby]
I'm gonna make it anyway [I can pay my own rent]
Pack your bags up and leave [pay my liability - take care of my babies]
Don't you dare come running back to me
It's not right but it's okay
I'm gonna make it anyway [get up and leave]
Close the door behind you
Leave your key
I'd rather be alone than unhappy
It's not right but it's okay [I'm gonna be okay, I'm gonna be alright]
I'm gonna make it anyway [I'm gonna be okay, I'm gonna be alright]
Pack your bags up and leave [I'm gonna be okay, I'm gonna be alright]
Don't you dare come running back to me
It's not right but it's okay [I'm gonna be okay, I'm gonna be alright]
I'm gonna make it anyway [I'm gonna be okay, I'm gonna be alright]
Close the door behind you [I'm gonna be okay, I'm gonna be alright]
Leave your key
I'd rather be alone than unhappy [there's no more tears left here for you to see]
It's not right but it's okay
I'm gonna make it anyway
Pack your bags up and leave
Don't you dare come running back to me
It's not right but it's okay
I'm gonna make it anyway
Close the door behind you
Leave your key
I'd rather be alone than unhappy
It's not right but it's okay
I'm gonna make it anyway
Pack your bags up and leave
Don't you dare come running back to me
It's not right but it's okay
I'm gonna make it anyway
Close the door behind you
Leave your key
I'd rather be alone than unhappy
W. Houston
segunda-feira, abril 3
Ontem sonhei que caminhava sobre moedas. Caminhava por ruas, de uma cidade antiga, cobertas de moedas.
Hoje voltei a sonhar contigo. Duas vezes. No primeiro sonho estávamos a iniciar uma viagem. Nós os dois e uma amiga tua. Tínhamos acabado de levantar voo, quando olhei pela janela e vi quatro aviões; percebi imediatamente que o acidente era inevitável. O piloto virou o avião de pernas para o ar, fiquei nauseado, e quando reparei já tínhamos aterrado. Aterramos no corcovado de Lisboa. Não existe, mas foi lá que aterramos.
Saímos do avião, poucos, e desfrutamos a vista enquanto a nave explodia. Lamentamos e continuamos…
Quase não me lembro o que se passou a seguir. Tenho ideia que foi um filme de terror. Lembro-me de haver muita água; de uma aranha gigante, que vocês não viram e que eu ignorei. Lembro-me de sermos perseguidos e de sentir as nossas vidas em risco. Talvez te tenha salvo a vida, ou estou a sonhar agora.
Adormeci e continuei a sonhar.
Estávamos algures na América do sul, num pais onde se falava castelhano. Mais uma vez, nós os dois e um grupo de amigos. A maior parte teus. Era tudo muito bonito à nossa volta.
Ainda me lembro menos deste. Quase nada.
Lembro-me de me ter perdido de vocês. Sentia-me completamente perdido. Não dominava a língua e não conhecia o espaço. Já não sei como, mas soube onde estavam. Apanhei um táxi. Era amarelo. O taxista, um homem obeso, falava sozinho, com raiva, em perfeito português, os nomes dos culpados pela existência dos diversos monumentos pelos quais íamos passando. Estava angustiado, sentia-me perdido, mas não conseguia concentrar-me na minha angústia. Era impossível não prestar atenção ao discurso do taxista. Era divertido.
De repente reparo que estam dois miúdos sentados ao meu lado. Um com cerca de cinco anos de idade e o outro talvez dois anos mais velho. Tipicamente latinos. Morenos, cabelo e olhos escuros. Havaianas gastas nos pés e calções colorido e sujos. Comportavam-se como se me tivessem acabado de ver. Falavam e riam-se comigo. Enquanto o taxista continuava guiar, eu tentava explicar-lhes a diferença entre o significado das palavras passarinho e pássaro, em português. Lembro-me que perceberam a diferença quando lhes disse que um pardal é um passarinho e que uma galinha é um pássaro. Eu próprio não fiquei satisfeito com a explicação, mas sentia-me sufocado, e assim eles sossegaram um pouco. Quase sem ar, perguntei ao taxista porque razão iam dois miúdos no meu táxi, se era eu que iria pagar. Então ele parou e os miúdos saíram. Estes contratempos faziam-me esquecer a angústia e lutar…
Estávamos parados junto a uma escarpa de onde se tinha uma vista magnífica sobre o mar azul-escuro. Lindo. E mais uma vez ouvi o nome do culpado. Mais uma vez esqueci a angústia e aproveitei a vista.
Hoje voltei a sonhar contigo. Duas vezes. No primeiro sonho estávamos a iniciar uma viagem. Nós os dois e uma amiga tua. Tínhamos acabado de levantar voo, quando olhei pela janela e vi quatro aviões; percebi imediatamente que o acidente era inevitável. O piloto virou o avião de pernas para o ar, fiquei nauseado, e quando reparei já tínhamos aterrado. Aterramos no corcovado de Lisboa. Não existe, mas foi lá que aterramos.
Saímos do avião, poucos, e desfrutamos a vista enquanto a nave explodia. Lamentamos e continuamos…
Quase não me lembro o que se passou a seguir. Tenho ideia que foi um filme de terror. Lembro-me de haver muita água; de uma aranha gigante, que vocês não viram e que eu ignorei. Lembro-me de sermos perseguidos e de sentir as nossas vidas em risco. Talvez te tenha salvo a vida, ou estou a sonhar agora.
Adormeci e continuei a sonhar.
Estávamos algures na América do sul, num pais onde se falava castelhano. Mais uma vez, nós os dois e um grupo de amigos. A maior parte teus. Era tudo muito bonito à nossa volta.
Ainda me lembro menos deste. Quase nada.
Lembro-me de me ter perdido de vocês. Sentia-me completamente perdido. Não dominava a língua e não conhecia o espaço. Já não sei como, mas soube onde estavam. Apanhei um táxi. Era amarelo. O taxista, um homem obeso, falava sozinho, com raiva, em perfeito português, os nomes dos culpados pela existência dos diversos monumentos pelos quais íamos passando. Estava angustiado, sentia-me perdido, mas não conseguia concentrar-me na minha angústia. Era impossível não prestar atenção ao discurso do taxista. Era divertido.
De repente reparo que estam dois miúdos sentados ao meu lado. Um com cerca de cinco anos de idade e o outro talvez dois anos mais velho. Tipicamente latinos. Morenos, cabelo e olhos escuros. Havaianas gastas nos pés e calções colorido e sujos. Comportavam-se como se me tivessem acabado de ver. Falavam e riam-se comigo. Enquanto o taxista continuava guiar, eu tentava explicar-lhes a diferença entre o significado das palavras passarinho e pássaro, em português. Lembro-me que perceberam a diferença quando lhes disse que um pardal é um passarinho e que uma galinha é um pássaro. Eu próprio não fiquei satisfeito com a explicação, mas sentia-me sufocado, e assim eles sossegaram um pouco. Quase sem ar, perguntei ao taxista porque razão iam dois miúdos no meu táxi, se era eu que iria pagar. Então ele parou e os miúdos saíram. Estes contratempos faziam-me esquecer a angústia e lutar…
Estávamos parados junto a uma escarpa de onde se tinha uma vista magnífica sobre o mar azul-escuro. Lindo. E mais uma vez ouvi o nome do culpado. Mais uma vez esqueci a angústia e aproveitei a vista.
sábado, abril 1
Esta noite sonhei contigo. É verdade, esta noite sonhei contigo.
Tinhas comprado uma terra. Parecia o Brasil, mas não era. Não era; era em África. Sentia-te o orgulho no olhar e nos movimentos; embora não nos tivéssemos olhado, nos olhos. Era uma barraca, no meio de um terreno meio alagado.
Tinhas uma quinta em África. E o céu estava lindo. Azul. Claro. E com algumas nuvens, quase invisíveis.
Ao entrar, tive de me esforçar para não molhar os sapatos. Tinhas placas de madeira no chão lamacento, para tornar a entrada menos desagradável. Sentia-me bem, enquanto te seguia, sentia que tudo era perfeito, sentia-me vivo, com força e estava a aprovar este teu projecto. Sentia que desta vez irias ter sucesso. Bom sucesso.
Quando entrei ficou de noite e a barraca, agora, era um bengalão. Que tinhas construído a partir de uma janela de um carro. A partir de uma janela de uma carrinha antiga. Muito confortável. Apenas três camas e uma janela.
Vivias lá com os nossos filhos. E três mulheres. Quando entrei: o mais velho, que já estava deitado, mas ainda não estava a dormir, inclinou ligeiramente a cabeça e olhou para mim. Sem ter sorrido, senti que estava a sorrir; estava sereno. Estava feliz por eu ter regressado, embora nunca tivesse partido; iríamos estar todos juntos novamente. Olhou para o irmão, que dormia na sua alcofa, e voltou a olhar para mim; desta vez sorriu. Mas não abriu a boca. Não havia nada a dizer. Ele sabia-o. Tínhamos, apenas, de esperar. Ele conhecia a verdade. Sabia o que tinha de ser feito. Estava à espera… Eu continuava a sonhar, ele sabia que era um sonho.
Tinhas comprado uma terra. Parecia o Brasil, mas não era. Não era; era em África. Sentia-te o orgulho no olhar e nos movimentos; embora não nos tivéssemos olhado, nos olhos. Era uma barraca, no meio de um terreno meio alagado.
Tinhas uma quinta em África. E o céu estava lindo. Azul. Claro. E com algumas nuvens, quase invisíveis.
Ao entrar, tive de me esforçar para não molhar os sapatos. Tinhas placas de madeira no chão lamacento, para tornar a entrada menos desagradável. Sentia-me bem, enquanto te seguia, sentia que tudo era perfeito, sentia-me vivo, com força e estava a aprovar este teu projecto. Sentia que desta vez irias ter sucesso. Bom sucesso.
Quando entrei ficou de noite e a barraca, agora, era um bengalão. Que tinhas construído a partir de uma janela de um carro. A partir de uma janela de uma carrinha antiga. Muito confortável. Apenas três camas e uma janela.
Vivias lá com os nossos filhos. E três mulheres. Quando entrei: o mais velho, que já estava deitado, mas ainda não estava a dormir, inclinou ligeiramente a cabeça e olhou para mim. Sem ter sorrido, senti que estava a sorrir; estava sereno. Estava feliz por eu ter regressado, embora nunca tivesse partido; iríamos estar todos juntos novamente. Olhou para o irmão, que dormia na sua alcofa, e voltou a olhar para mim; desta vez sorriu. Mas não abriu a boca. Não havia nada a dizer. Ele sabia-o. Tínhamos, apenas, de esperar. Ele conhecia a verdade. Sabia o que tinha de ser feito. Estava à espera… Eu continuava a sonhar, ele sabia que era um sonho.
Entretanto, vocês chegaram. Eram três belas mulheres. Eram uma família, de mulheres. Fiquei, também, a saber que algo tinha de ser feito. Só uma de vocês poderia ficar. Só uma de vocês poderia continuar a existir. Mas eu não sabia qual das três eras tu. Nunca me olhaste nos olhos. Todas me pareciam familiares. Sabia que não havia espaço para erros.
Sabes qual a vantagem de se morrer jovem?
Não é um cadáver perfeito. Sim, quando jovens temos corpos perfeitos. Mesmo quando um pouco magricelas ou um pouco gordinhos.
A vantagem é não termos de passar pelas humilhações que a vida nos tem guardado.
Não deixamos marcas. Apenas uma marca indelével. E assim esquecem-nos depressa. Não chegamos a ser nada. Nem mesmo profissionalmente.
É verdade. Mas nós não vamos morrer jovens.
Não é um cadáver perfeito. Sim, quando jovens temos corpos perfeitos. Mesmo quando um pouco magricelas ou um pouco gordinhos.
A vantagem é não termos de passar pelas humilhações que a vida nos tem guardado.
Não deixamos marcas. Apenas uma marca indelével. E assim esquecem-nos depressa. Não chegamos a ser nada. Nem mesmo profissionalmente.
É verdade. Mas nós não vamos morrer jovens.
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